Nenhuma célula do meu corpo

Nenhuma célula do meu corpo
nenhuma célula do teu corpo
queria voar contigo
queria voar comigo
numa história de amor

Nenhum beijo dos meus lábios
nenhum beijo dos teus lábios
queria arder na tua pele
queria arder na minha pele
num incêndio de amor

Nenhum brilho nos meus olhos
nenhum brilho nos teus olhos
queria ter-te enlouquecida
queria ter-me enlouquecido
num feitiço de amor

Abri-te e fechei-te.
Abriste-me, fechaste-me.
O dia nasceu.
O dia pôs-se.
E escurecemos
numa noite
sem estrelas.

Recordo-te misturada

Recordo-te misturada com a tinta fresca do último navio, traída pelas ondas instáveis do Atlântico. Longa como a luz branca do farol invisível. Breve, mas intensa, como a maré redonda. Íamos contra o vento e contra a vontade, a querer conservar entre os dois o ardor que, na viagem, nos fugia. Demorámos pouco tempo um no outro. O pouco tempo que tínhamos um no outro. Mas ficaste-me nesta memória irrefragável.

Existias numa porção encantada do tempo

Existias numa porção encantada do tempo. Um lugar de águas lentas como os teus olhos circulares. Procurava-te nas sombras, nos cheiros, nas estórias, mas perdia-te sempre. Perdia-me sempre. Guardo solenemente os vestígios imateriais da tua sumptuosa ausência: de nada haver abaixo da lua senão eu perdido de ti, tu perdida de mim. E, às vezes, ainda acordo dentro do sonho em que me imaginavas a amar-te.